| |
1 - Introdução
A Igreja, ao longo de sua história, tem presenciado o surgimento
de muitos "despertares"(2) e movimentos de “renovação”. Como
observa o conceituado teólogo Heribert Mühlen, em muitos deles
“irrompe assim, novamente, a vitalidade pentecostal da Igreja, e
isso de um modo nunca previsto”(3) .
O "século da Igreja", como foi muitas vezes definido o século
XX, já se iniciará sob o signo de uma necessidade: o desejo da
presença criadora e libertadora do Espírito.(4)
Em 9 de maio de 1897, o Papa Leão XIII publicou a Encíclica
Divinum Illud Munus, sobre o Espírito Santo(5) , "lamentando que
o Espírito Santo fosse pouco conhecido e apreciado, concita o
povo a uma devoção ao Espírito". A leitura, os sermões e livros
sobre este documento influenciarão muitas pessoas, estimulando
também um número importante de estudos sobre o papel do Espírito
Santo na Igreja.(6)
Passadas algumas décadas e convocado solenemente no dia 25 de
dezembro de 1961, através da Constituição Apostólica Humanae
Salutis, a vida da Igreja contemporânea ficará profundamente
marcada pelo Concílio Vaticano II (1962-1965).
Superando a fase apologética defensiva contra o mundo moderno,
teve o Concílio o mérito de recolher e direcionar vozes
proféticas do século XIX, que buscaram redescobrir a integridade
e o ministério da Igreja, bem como movimentos na primeira metade
do século XX, entre eles: Movimento Litúrgico, Movimento
Bíblico, Movimento Ecumênico, etc., e que traziam um desejo
comum: "renovar a vida da Igreja e dos batizados a partir de um
retorno às origens cristãs"(7) .
Para seu promotor, o Papa João XXIII(8) , o Concílio deveria ser
uma "abertura de janelas" para que um "ar novo e fresco"
renovasse a Igreja.
Depois de quatro etapas conciliares, o Papa Paulo VI encerrou o
Concílio Ecumênico Vaticano II em uma cerimônia ao ar livre, na
Praça de São Pedro, no dia 8 de dezembro de 1965.
Tendo também sido qualificado como o Concílio do Espírito Santo,
"O Vaticano II foi um verdadeiro Pentecostes como o mesmo João
XXIII havia desejado e ardentemente pedido”(9) e, embora a
dimensão carismática jamais deixasse de existir na realidade e
na consciência eclesial, sobretudo na Lumen Gentium, em seu
primeiro capítulo, o Vaticano II nos torna manifesto esta
realidade não como algo secundário, mas como fundamental.
Segundo este documento a Igreja é intrinsecamente carismática.
O Concílio Vaticano II não vê nenhum motivo para que se
estabeleça uma oposição entre "carisma" e "ministério" ou
"carisma" e "instituição"; tal como as instituições e os
ministérios, os carismas são realidades igualmente essenciais
para a Igreja. O Concílio consegue, assim, superar as antigas
impostações dicotômicas que predominaram no campo teológico por
vários anos e recupera o equilíbrio salutar da eclesiologia: o
Espírito guia a Igreja e a "unifica na comunhão e no ministério;
dota-a e dirige-a mediante os diversos dons hierárquicos e
carismáticos" (LG 4)(10).
Na perspectiva do Cardeal Suenens, João XXIII estava consciente
de que a Igreja necessitava de um novo pentecostes e acrescenta:
“Agora, olhando para trás, podemos dizer que o concílio,
indicando a sua fé no carisma, fez um gesto profético e preparou
os cristãos para acolher a Renovação Carismática que está se
espalhando por todos os cinco continentes”(11) .
Na compreensão que tem de si, a Renovação Carismática se percebe
como um acontecimento estreitamente vinculado ao Concílio:
A Renovação Carismática apareceu na Igreja Católica no momento
em que se começava a procurar caminhos para pôr em prática a
renovação da Igreja, desejada, ordenada e inaugurada pelo
Concílio Vaticano II.
Não se havia passado um ano sequer ao término do Concílio,
quando em 1966 começou a despontar o fenômeno religioso chamado
agora Renovação Carismática(12) .
Não sendo, pois, um acontecimento isolado, podemos localizar a
Renovação Carismática como um dos desdobramentos da evolução da
espiritualidade pós-conciliar.
2 - O nascimento da Renovação Carismática Católica
A Renovação Carismática Católica, ou o Pentecostalismo Católico,
como foi inicialmente conhecida, teve origem com um retiro
espiritual realizado nos dias 17-19 de fevereiro de 1967, na
Universidade de Duquesne (Pittsburgh, Pensylvania, EUA).(13)
Em uma carta enviada dois meses após (29 de abril de 1967), a um
professor, Monsenhor Iacovantuno, Patti Gallagher, uma das
estudantes que participou do retiro, assim relatou o que
aconteceu naqueles dias:
Tivemos um Fim de Semana de Estudos nos dias 17-19 de fevereiro.
Preparamo-nos para este encontro, lemos os Atos dos Apóstolos e
um livrinho intitulado "A Cruz e o Punhal" de autoria de David
Wilkerson. Eu fiquei particularmente impressionada pelo
conhecimento do poder do Espírito Santo e, pelo vigor e a
coragem com que os apóstolos foram capazes de espalhar a Boa
Nova, após o Pentecostes. Eu supunha, naturalmente, que o Fim de
Semana me seria proveitoso, mas devo admitir que nunca poderia
supor que viria a transformar a minha vida!
Durante os nossos grupos de discussão, um dos líderes colocou em
tela o fato de que nós devemos confirmar constantemente os
nossos votos de Batismo e de Crisma, assim como devemos ter a
alma mais aberta para o Espírito de Deus. Pareceu-me curioso,
mas um pouco difícil de acreditar quando me foi dito que os dons
carismáticos concedidos aos apóstolos são ainda dados às pessoas
nos dias atuais – que ainda existem sinais do poder divino e
milagres – e que Deus prometeu emanar o seu Espírito para que se
fizesse presença a todos os seus filhos. Decidimos, então,
efetuar a renovação dos votos de Batismo e de Crisma como parte
do serviço da missa de encerramento, no domingo à noite. Mas, no
entanto, o Senhor tinha em mente outras coisas para nós!...
No sábado à noite, tínhamos programado uma festinha de
aniversário para alguns dos colegas, mas as coisas foram
simplesmente acontecendo sem alternativa. Fomos sendo conduzidos
para a capela, um de cada vez, e recebendo a graça que é
denominada de Batismo no Espírito Santo, no Novo Testamento.
Isto aconteceu de maneiras diversas para cada uma das pessoas.
Eu fui atingida por uma forte certeza de que Deus é real e que
nos ama. Orações que eu nunca tinha tido coragem de proferir em
voz alta, saltavam dos meus lábios. (...) Este não era, pois um
simples bom fim de semana, mas, na realidade, uma experiência
transformadora de vida que ainda está prosseguindo e se
desenvolvendo em crescimento e expansão.
Os dons do Espírito já são hoje manifestados – e isto eu posso
testemunhar, porque tenho ouvido pessoas orando em línguas,
outras praticam curas, discernimento de espíritos, falam com
sabedoria e fé extraordinárias, profetizam e interpretam.
Eu, agora, tenho certeza de que não há nada que tenhamos de
suportar sozinhos, nenhuma oração que não seja atendida, nenhuma
necessidade que Deus não possa cobrir em sua riqueza! E, no
depender dele e louvá-lo com fidelidade, eu sinto uma tremenda
sensação de liberdade.
Podemos tentar viver como cristãos, morrendo para nós mesmos e
para o pecado, mas esta será uma luta desanimadora se não
contarmos com o poder do Espírito. Ainda existem tentações e
problemas, mas agora tenho a certeza e a confiança em Deus,
agora ele me dá segurança. Realmente, transforma-me a viver
nele. É verdade que na Crisma, nós recebemos o Espírito Santo e
que nós somos seus templos, mas nós não nos abrimos o suficiente
para receber em nossas vidas os seus dons e o seu poder. É certo
que o Espírito Santo é o nosso professor: eu dele aprendi tanto
e em tão pouco tempo!
As Escrituras vivem! Amém! Eu estou segura de que jamais poderia
ter acumulado por minha própria conta tanto conhecimento, apesar
de todo o esforço desenvolvido, e com as melhores intenções que
tivesse.
(…) Eu me vi, de repente, conversando com as pessoas sobre
Cristo, e, vendo desde logo o resultado desse trabalho! Eu
jamais teria ousado fazer essas coisas no passado, mas agora, é
ao contrário: é impossível deixar de fazê-lo. É como disseram os
apóstolos depois de Pentecostes: “Como podemos deixar de falar
sobre as coisas que vimos e ouvimos!" (…)(14) .
Estas notícias se divulgaram rapidamente, causando um grande
impacto no meio religioso universitário. O “Fim de Semana de
Duquesne”, como ficou mundialmente conhecido este retiro, tem
sido geralmente aceito como o ponto de partida que deu origem à
Renovação Carismática Católica, cuja abrangência estender-se-á,
num curto período de tempo, por um grande número de países.
A experiência inicial vivida nestas universidades, caracterizada
por um reavivamento espiritual por meio da oração, da vida nova
no Espírito, com a manifestação dos seus dons, tomará corpo,
transpondo rapidamente o ambiente onde foi originada.
Através das reuniões, seminários e encontros, em breve,
aparecerão grupos de oração noutras universidades, paróquias,
mosteiros, conventos, etc. Os testemunhos multiplicam-se, vindos
dos mais variados grupos de pessoas: operários, ex-presidiários,
professores, religiosos das mais diversas ordens.
Kevin e Dorothy Ranaghan ainda registram um aspecto pouco
divulgado desta história inicial da Renovação Carismática:
Nossa suspeita de que essa experiência de renovação, que agora
estava espalhada, não era nova para os católicos americanos, foi
confirmada, quando ouvimos notícias ou recebemos cartas de
pessoas ou grupos de católicos ao redor do país. Da Flórida,
Califórnia, Texas, Wisconsin, Massachusetts, tivemos notícias do
trabalho calmo do Espírito Santo no decorrer dos anos(15) .
Portanto, embora os primeiros momentos da Renovação tenham se
dado em torno do retiro de Duquesne e apesar de estarem os
americanos igualmente presentes no seu nascimento em diversos
outros países, seria falso atribuir a expansão da Renovação
Carismática unicamente à sua influência. Como afirma Monique
Hébrard, a Renovação Carismática “explodiu quase ao mesmo tempo
em todos os cantos da terra e em todas as igrejas cristãs, sem
que se saiba muito bem como é que o fogo se ateou”(16) .
Para o Cardeal Suenens isto também despertou uma curiosidade, ou
seja, “sem nenhum contato entre si, parece que o Espírito Santo
suscitou em vários lugares do mundo experiências que, se não são
iguais, certamente são semelhantes”(17) .
3 - A expansão da
Renovação Carismática Católica
A Renovação Carismática Católica chama a atenção pelo grande
número de integrantes. Vejamos como foi seu crescimento, que
tamanho assume e como está organizada.
3.1 Crescimento
O fato de muitos canadenses estudarem em Notre Dame e outras
universidades da Região dos Lagos, fez com que a Renovação
Carismática fosse levada ao Canadá também em 1967, conhecendo aí
um rápido crescimento.
Já em 1968 foi realizado nos EUA o primeiro congresso nacional,
com 100 participantes; em 1969, 300; em 1970, 1.300; em junho de
1971, 5.000 e em 1972, 12.000.
Em 1973, aconteceu o primeiro congresso internacional em
South-Bend, Indiana, contando com 25.000 participantes e outro
em Roma, com 120 líderes de 34 países; em 1974, o segundo
Congresso Internacional, em South Bend, reuniu 30.000
participantes vindos de 35 países, estando presentes 700 padres
e 15 bispos. Em Roma houve, em 1974, um segundo Congresso, com
220 líderes, vindos de 50 diferentes países. Foi uma preparação
para o terceiro Congresso Internacional, realizado de 16 a 19 de
maio de 1975, que reuniu 10.000 participantes provenientes de 54
países.(18)
Entre os anos de 1970 – 80 a Renovação já estava presente em
outros países de língua inglesa (Inglaterra, 1970-71; Austrália,
1970; Nova Zelândia, 1971) bem como da Europa Ocidental (França
1971-72; Bélgica, 1972; Alemanha, 1972; Itália, 1973; Espanha
1973-74; Portugal, 1974). Na Europa Oriental, a Renovação chegou
apenas na Polônia (1976-77), já na América Latina, na maioria
dos países, ela chegou entre 1970-74, quando também apareceu em
países da Ásia, como Coréia (1971) e Índia (1972). Foi durante
esta década que apareceram muitas comunidades carismáticas(19) .
Os países onde elas inicialmente floresceram foram os Estados
Unidos, França e Austrália. Delas as mais influentes foram: Word
of God, Ann Harbor, Michigan (EUA); People of Praise, South
Bend, Indiana (EUA); Aleluia, Augusta, Geórgia (EUA); Emmanuel,
Brisbane (Austrália); Emmanuel, Paris (França); Chemim Neuf,
Lyon (França); e Leão de Judá (mais tarde chamada de
Beatitudes), Cordes (França). Essas comunidades tornaram-se
responsáveis por organizarem muitos dos serviços da Renovação,
tais como retiros, congressos e revistas de divulgação, onde
destacam-se: a New Covenant (EUA), Il Est Vivant (França) e Feu
et Lumière (França)(20).
Entre 1980-90 a Renovação Carismática ampliará suas relações com
a hierarquia, durante este período haverá um esforço de
aproximação entre os diversos países e a consolidação de
organizações nacionais e internacionais.
Na década seguinte, marcada pela mudança de regime político do
leste europeu, surgiram muitos grupos de oração nos países que
compunham a antiga União Soviética. Também na África, Ásia e
América Latina, muitos países têm registrado um crescimento da
Renovação. Filipinas, Brasil e México estão entre os países com
o maior número de participantes e grupos de oração.
3.2 Tamanho
David Barret e Tood Johnson, em um amplo levantamento
quantitativo, realizado entre os anos de 1995 e 2000,
apresentaram a expansão da Renovação Carismática, desde seu
surgimento em 1967, com as primeiras reuniões de oração, até
mais recentemente no ano 2000, com sua ampla difusão mundial
(Tabela 1)(21) .
|
Tabela 1.
Crescimento numérico da Renovação Carismática Católica,
1967-2000. |
|
|
Participantes |
% |
|
Ano |
No G.O |
Semanal |
Mensal |
Anual |
Envolvidos |
Famílias |
Comunidade |
Cat. |
|
1967 |
2 |
Primeiros Grupos de Oração Carismáticos formados nos
Estados Unidos |
0,0 |
|
1970 |
2.185 |
238.500 |
500.000 |
1.000.000 |
1.600.000 |
2.000.000 |
2.000.000 |
0,3 |
|
1973 |
3.000 |
900.000 |
2.000.000 |
3.500.000 |
5.000.000 |
7.000.000 |
8.000.000 |
1,1 |
|
1975 |
4.000 |
1.995.730 |
3.000.000 |
6.000.000 |
9.000.000 |
11.000.000 |
15.000.000 |
2,7 |
|
1980 |
12.000 |
3.000.000 |
4.771.390 |
7.700.000 |
16.000.000 |
30.000.000 |
40.000.000 |
5,0 |
|
1985 |
60.000 |
4.200.000 |
7.547.050 |
12.000.000 |
22.000.000 |
40.100.000 |
63.500.000 |
7,3 |
|
1990 |
90.000 |
7.000.000 |
10.100.000 |
17.000.000 |
30.000.000 |
45.000.000 |
85.000.000 |
9,2 |
|
1995 |
127.000 |
11.000.000 |
14.000.000 |
20.000.000 |
34.000.000 |
60.000.000 |
104.900.000 |
10,4 |
|
2000 |
148.000 |
13.400.000 |
19.300.000 |
28.700.000 |
44.300.000 |
71.300.000 |
119.900.000 |
11,3 |
A tabela indica que em 1970 já haviam grupos de oração em 25
países e em 1975, em 93. No ano de 2000 a Renovação Carismática
encontrava-se presente em 235 países, por onde se distribuíam
cerca de 148.000 grupos de oração.
Nesta pesquisa os participantes foram divididos em seis
categorias: “semanal”, “mensal”, “anual”, “envolvidos”,
“famílias” e “comunidade”. As quatro primeiras contabilizam
pessoas adultas e as duas últimas incluem também as crianças.
Na primeira categoria encontram-se os que comparecem
semanalmente a um grupo de oração, são considerados a “tropa de
choque” da Renovação Carismática e estavam estimados no ano 2000
em aproximadamente 13,4 milhões pessoas.
A categoria “mensal” identifica os que participam nas reuniões
de oração em uma ou mais vezes por mês, com aproximadamente 19,3
milhões de pessoas, e a categoria “anual”, com aproximadamente
28,7 milhões de pessoas, cobre os adultos com menos
regularidade, que muitas vezes participam somente durante um
congresso ou grande evento anual.
Os classificados como “envolvidos” são os que se identificam
perante a opinião pública como católicos carismáticos, também
são incluídos um grande número de católicos de movimentos de
renovação. Correspondem a 44,3 milhões de pessoas.
Incluindo adultos e crianças, foram ainda quantificadas a
categoria “família”, com um número 71,3 milhões de pessoas e a
categoria chamada de “comunidade”, onde são contabilizados
católicos carismáticos ativos, os que se tornaram irregulares ou
menos ativos, os que atuam em outras atividades ou se tornaram
inativos, perfazendo um total de 119,9 milhões de pessoas, o que
representa 11,3% do total de católicos batizados.
Como podemos constatar, trata-se de um crescimento que não passa
despercebido, a Renovação é sem dúvida um dos maiores
acontecimentos religiosos da atualidade.
3.3 Organização
Desde o princípio, os integrantes da Renovação, para melhor
promover suas atividades, sentiram a necessidade de
organizarem-se, contando para isto com equipes de âmbito local,
regional, nacional e internacional. Essas equipes têm como
função promover uma articulação entre suas coordenações e
garantir sua unidade.
O Grupo de Oração é a base da estrutura da Renovação
Carismática. Organizados geralmente nas paróquias e liderados
por leigos, eles são formados por um número variado de pessoas,
em reuniões que acontecem semanalmente.
Muitos dos grupos de oração deram origem às comunidades
carismáticas(22) , onde os laços de vida entre seus integrantes
são mais estreitos. Estas comunidades têm várias estruturas,
vocações, formas e graus de dedicação. Algumas delas foram muito
importantes para o desenvolvimento e propagação da Renovação.
Além de encontros nos grupos de oração, os membros da Renovação
Carismática se reúnem com alguma freqüência em encontros de
oração, que ocorrem nos fins de semana, na forma de retiros
visando aprofundar o conhecimento de Renovação e preparar novos
líderes. Podem ser organizados em âmbito paroquial, diocesano,
etc. Igualmente, em média uma vez por ano, ocorrem em cada
Estado ou Diocese os Cenáculos que são grandes encontros que
reúnem milhares de pessoas em estádios de futebol, ou ginásios
esportivos, onde realizam-se dias de oração semelhantes aos que
ocorrem nos grupos de oração.
Assim, a Renovação criou uma organização interna que lhe dá um
elevado grau de maleabilidade: por um lado, cada grupo de oração
goza de grande autonomia, podendo realizar suas reuniões
conforme as necessidades específicas de seus membros; por outro,
as equipes de coordenação, atuando por meio das atividades
auxiliares, garantem à Renovação Carismática uma linha
comum.(23)
Em Roma, a Renovação conta com um Escritório Internacional, que
teve como origem um centro de comunicação que surgiu em Ann
Arbor, Michigan. Esta cidade, tornou-se um centro de referência
no início da Renovação Carismática nos EUA e como relata Ralph
Martin:
Logo começamos a receber correspondência e visitantes do mundo
inteiro. Um centro de comunicação internacional informal cresceu
e acabou sendo formalizado no início da década de 70, sendo
chamado de ICO (“International Communication Office” –
Escritório Internacional de Comunicação)(24) .
Em 1976, o Cardeal Suenens convidou Ralph Martin para mudar-se
para Bruxelas na Bélgica. Indo para lá levou também o ICO,
tornando-se o seu primeiro presidente. Em 1978, o escritório
passou a ser formado por nove integrantes, que representavam os
cinco continentes. Ao final deste ano Pe. Tom Forrest passa ser
seu novo presidente e em 1981 o ICO foi transferido para Roma,
passando a ser chamado de ICCRO (“International Catholic
Charismatic Renewal Office” – Escritório Internacional da
Renovação Carismática), tendo em sua presidência o Pe. Fio
Mascarenhas da Índia (1981-87), que foi sucedido pelo Fr. Ken
Metz dos Estados Unidos (1987-94).(25)
Através do ICCRO a Renovação sentiu a necessidade de solicitar à
Santa Sé um reconhecimento oficial. Após um lento e rigoroso
trabalho, realizado pelos membros do ICCRO e com o apoio de
alguns bispos e cardeais, foram apresentados os “Estatutos do
ICCRO”, que depois de analisados por teólogos e canonistas do
Vaticano, passaram por alguns ajustes e foram aprovados em 8 de
julho de 1993 com o titulo de “Estatutos ICCRS” (“International
Catholic Charismatic Renewal Service” – Serviço Internacional da
Renovação Carismática Católica)”, onde são detalhados sua
natureza, objetivos e estrutura.(26)
Em 14 de setembro de 1993, através do Pontifício Conselho para
os Leigos foi expedido o decreto de reconhecimento do ICCRS(27)
. Do ano de 1994 até 2000, o ICCRS foi presidido por Charles
Whitehead (Inglaterra) e a partir de 2000 tem à sua frente Allan
Panozza (Austrália)(28) .
O ICCRS reúne seus membros com freqüência para discutir e
planejar a Renovação em âmbito mundial. Realiza retiros e
encontros internacionais, mantém um site na internet(29) e
publica o "Boletim do ICCRS", com notícias e material de
formação em inglês, francês, italiano, espanhol e português.
Outra organização internacional importante é a CFCCCF ("Catholic
Fraternity of Charismatic Covenant Communities and Fellowships"
- Fraternidade Católica das Comunidades de Aliança e Vida).
Composta por mais de 50 comunidades espalhadas pelo mundo, teve
em novembro de 1990, seus Estatutos reconhecidos pelo Pontifício
Conselho para os Leigos. (30)
Na América Latina, sediado atualmente na cidade do México, há o
CONCCLAT (Conselho Carismático Católico Latino Americano), um
organismo continental criado em 1972 que tem como objetivo
promover o intercâmbio e refletir sobre a experiência da
Renovação Carismática nos ambientes culturais católicos
latino-americanos. Através do CONCCLAT acontece a cada dois anos
o ECCLA (Encontro Carismático Católico Latino Americano).
Ao mesmo tempo em que se estruturava no plano internacional, a
Renovação também se organizava em âmbito nacional (vide RCC no
Brasil)
Legendas
1-Síntese realizada a partir da obra de VOLCAN, Marcos Dione
Ugoski. Renovação Carismática Católica: uma leitura teológica e
pastoral. Tese de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica do
Rio Grande do Sul, 2003.
2-"Épocas caracterizadas por manifestações particularmente
intensas de dons e operações do Espírito." (CANTALAMESSA,
Raniero. O Canto do Espírito. Meditações sobre o "Veni Criator".
3. ed. Petrópolis: Vozes, 1998, p. 189).
3-MUHLEN, Heribert. Fé cristã renovada: carisma, Espírito,
libertação. São Paulo: Edições Loyola, 1980, p. 6.
4-Cf. FORTE, Bruno. A Igreja ícone da Trindade: breve
eclesiologia. São Paulo: Loyola, 1987, p.13. (Coleção Vaticano
II - Comentários - 3).
5-Tradução portuguesa: Sobre o Espírito Santo. 2a. ed.
Petrópolis: Vozes, 1946. (Coleção Documentos Pontifícios V) -
Alguns autores, fazem referência à influência que uma italiana,
Irmã Elena Guerra, teria tido na publicação desta encíclica. A
religiosa foi fundadora, em Lucca, Itália, das Irmãs Oblatas do
Espírito Santo. Aos cinqüenta anos sentiu-se inspirada em
escrever ao Papa Leão XIII, instando-lhe que renovasse a Igreja
através da promoção de um retorno ao Espírito Santo. Entre os
anos de 1895 e 1903 lhe escreveu 12 cartas onde também sugere
que estabeleça uma devoção em toda a Igreja como um "permanente
e universal Cenáculo". Além da publicação da referida encíclica,
em 1o de janeiro de 1901, Leão XIII dedicou o século XX ao
Espírito Santo, entoando em nome de toda Igreja o hino Veni
Creator Spiritus. (Cf.: CANTALAMESSA, Raniero; GAETA, Saverio. O
sopro do Espírito. São Paulo: Paulus e Editora Ave-Maria, 1998,
p. 15-16; CHAGAS, C. Op. cit. p. 11; MANSFIELD, P. G. Op. cit.
p. 8-10).
6-CHAGAS, Cipriano, OSD. A descoberta do Espírito e suas
implicações para uma transformação eclesial – um estudo sobre a
Renovação Carismática. Tese de Mestrado, Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro, RJ, 1976, p.11.
7-SANTANA, Luiz Fernando. O Espírito Santo e a Espiritualidade
Cristã. Rio de Janeiro: Edições Bom Pastor, 1999, p. 3-4.
8-"Em seu breve pontificado, Ângelo Roncalli (1881-1963)
provocará uma guinada histórica no catolicismo, com o seu
testemunho de bondade, com seu espírito de diálogo e com a
imprevisível convocação do Concílio Vaticano II." (DE FIORES,
Stefano. A "nova" espiritualidade. São Paulo: Editora Cidade
Nova/Paulus, 1999, p. 31).
9-CODINA, V. Creo em el Espíritu Santo - Pneumatologia
narrativa. Espanha: Sal e Terrae, 1994. p. 51).
10-SANTANA, L. F. Op. cit. p. 41.
11-SUENENS, L. J. O cardeal Suenens opina sobre a Renovação
Carismática. In. ALDUNATE, C. et al. A experiência de
Pentecostes. A Renovação Carismática na Igreja Católica. 5. ed.
São Paulo: Edições Loyola, 1986, p. 40.
12-RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA. A identidade da RCC. São José
dos Campos: FUNDEC, s/d, p. 12.
13-Entre as obras que irão documentar os fatos referentes ao
retiro, e a partir das quais se multiplicarão os estudos sobre a
Renovação, destacam-se duas: a primeira de Kevin e Dorothy
Ranaghan, publicada em 1969 e traduzida para o português em
1972, traz os relatos e testemunhos daqueles que participaram
dos eventos iniciais da Renovação. Para os autores o “Fim de
Semana de Duquesne” foi “um dos mais notáveis acontecimentos na
história do movimento pentecostal no mundo.” (RANAGHAN, K.;
RANAGHAN, D. Católicos Pentecostais. São Paulo: O. S. Boyer,
1972, p. 33); a segunda, do Pe. Edward O’Connor, professor de
teologia na Universidade de Notre Dame (South Bend, Indiana),
publicada em 1971, procurou, não só descrever os acontecimentos,
mas também, à luz da tradição católica e cronologicamente muito
próxima dos fatos, fazer uma análise teológica sobre a Renovação
Carismática.
(O’CONNOR, Edward. D. The Pentecostal Movement in the Catholic
Church.
Notre Dame: Ave Maria Press, 1971).
14-MANSFIELD, Patti Gallagher. Como um novo Pentecostes: relato
histórico e testemunhal do dramático início da Renovação
Carismática Católica. 3. ed. Rio de Janeiro: Edições
Louva-a-Deus, 1995, p. 3.
15-Idem, p. 65-68.
16-HÉBRARD, Monique. Os carismáticos. Porto: Editora Perpétuo
Socorro, 1992, p. 9.
17-Cf. SUENENS, Cardeal León Joseph. Movimento Carismático: um
novo pentecostes. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1996, p. 84.
18-Cf. CHAGAS, Dom Cipriano. Op. Cit. p. 37; Cf. RENOVAÇÃO
CARISMÁTICA CATÓLICA. Temas e Conferências, 1981, p. 2.
19-Sobre Comunidades Carismáticas ver: SMET, Walter. Comunidades
Carismáticas. O testemunho insólito da renovação cristã. São
Paulo: Edições Loyola, 1987; CORDES, Paul Joseph. Reflexões
sobre a Renovação Carismática Católica, São Paulo: Edições
Loyola, 1987, p. 74-77; SUENENS, L. J. Op. cit.; ANGE, Daniel. A
Renovação, primavera da Igreja. São Paulo: Edições Loyola, 1999,
p. 55-58; BURGESS, S. M. (Ed.).
Burgess, Stanley M. (Editor). New International Dictionary or
Pentecostal and Charismatic Movements. Michigan: Zondervan Grand
Rapids, 2002, p. 473-76.
20-Cf. HOCKEN, P. The Catholic Charismatic Renewal. In.: SYNAN,
Vinson. Century of the Holy Spirit. 100 years of pentecostal and
charismatic renewel - 1901-2001.
Nashville: Thomas Nelson Publishers, 2001, p. 219.
21-A pesquisa foi realizada através de questionários enviados
pelo Escritório Internacional da Renovação Carismática Católica
aos coordenadores ou equivalente em cada país do mundo. Um
pequeno questionário com 7 perguntas, que tiveram suas respostas
devolvidas por fax, e-mail e reforçadas com informações
adicionais [Cf. BARRET, David; JOHNSON, Tood.
The Catholic Charismatic Renewal, 1959-2025. In: PESAR, Oreste
(Org.) “Then Peter stood up...”.
Vatican City: ICCRS, 2000, p. 117-124].
22-Cf. BLAQUIÈRE, Georgette. Pentecostes é hoje: os grupos de
oração da Renovação Carismática. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1993,
p. 11-13.
23-Cf. OLIVEIRA, Pedro Ribeiro et al. Renovação Carismática
Católica. Uma análise sociológica. Interpretações Teológicas.
Petrópolis: Vozes/INP/CERIS, 1978, p. 22.
24-BOLETIM do ICCRS. v. 23, n. 1, p. 3, jan.-fev. 2002. Mais
precisamente em 1972 [Cf. BURGESS, S. M. (Ed.). Op. cit. p.
462].
25-Cf. BOLETIM do ICCRS, Idem. Ibid.
26-Cf. ALDAY, Salvador Carrillo. Renovação Carismática: um
pentecostes hoje. São Paulo: Paulus, 1996, p. 5-6.
27-Reconhecendo o ICCRS como: “um corpo para a promoção da
Renovação Carismática Católica, com personalidade jurídica”,
segundo o Cânone 116 do Código de Direito Canônico (Pontificium
Consilium pro Laicis. 1565/93 AIC-73).
28-Allan Panozza foi nomeado pelo então Papa João Paulo II, como
membro do Pontifício Conselho para os Leigos (Conforme notícia
divulgada em 25 de fevereiro de 2002, pela Secretaria de
Imprensa da Santa Sé), o que teve uma repercussão importante
para a Renovação Carismática (Cf. BOLETIM do ICCRS. v. 28, n. 2,
p. 4, mar.-abr. 2002).
29-http://www.iccrs.org
30-Esta foi a primeira do gênero a ser reconhecida pelo Vaticano
como associação privada de fiéis (Cf. HÉBRAD, D. Op. cit. p.
49). Para João Paulo II o ICCRS também deveria cumprir o papel
de ser “uma organização cuja tarefa é coordenar e encorajar uma
troca de experiências entre comunidades católicas e carismáticas
do mundo inteiro.” (Cf. BOLETIM do ICCRS. v. 28, n. 2, p. 5,
mar.-abr. 2002).
Fonte: RCC Brasil (www.rccbrasil.org.br)
|
|